Sem geração

3 mar 2015

Eu gosto é do estrago

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Leia ouvindo O Velho e o Moço – Los Hermanos:   

 

Tem coisas que não dá pra entender.

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Foto: Karine Bittencourt.

As vezes você tem aparentemente tudo: uma casa e um quarto só pra você. Sua família por perto, seus amigos e sua cachorra. Tem comida pronta todos os dias na mesa e mal se preocupa com a louça depois que come. Aliás, não se preocupa com quase nada: os afazeres de casa, bem como as contas de energia, água e internet estão longe de se tornarem problemas. Elas estão sempre lá: pagas. As roupas aparecem no seu quarto lavadas, seus tênis sujos aparecem limpos e seu dinheiro você usa pra aquilo que quiser. Se você comete algum erro, vai ter sempre alguém por perto pra tentar justificá-los pra você e fazer você se sentir melhor. Legal, né? Não. Por fora tá tudo bem, mas aqui dentro tá um caos. A gente, mesmo com tudo no lugar, é um inferno pessoal. Você é infeliz, vive ansioso, só sabe reclamar e acorda sempre de mau humor. Vive com a sensação de que falta algo e acorda já esperando que o dia acabe. Mesmo com 20 anos, se sente no fim da vida. Tá tudo errado.

Então, de repente. você faz literalmente a maluca. Junta suas coisas, pede demissão do emprego aparente estável e se muda. Pra longe. Pra longe da cidade, do conforto, dos amigos e da família.

E aí você se vê no caos: mal sabe se vai ter onde chamar de lar na semana seguinte, ou sequer vai ter um lugar confortável pra dormir e colocar suas três malas de coisas. Se vê ganhando a grana suficiente pro básico. Conta os trocos pra sair, pra pagar as contas, pra pegar o ônibus. Não tem sua família por perto pra te dar aquele colo esperto quando você começa achar que nada vai dar certo. Não tem seu quarto pra se trancar, seus melhores amigos pra desabafar, e sua cachorra pra pular em você quando você chega. Aliás, você chega e não tem ninguém esperando. Precisa fazer sua comida se quiser comer e pagar a sua roupa nova se quiser tê-la. Vive no meio de estranhos. Vive das incertezas, das apostas, dos riscos. Você dorme e acorda sem saber o que vai ser de amanhã. Precisa tomar decisões sozinho e assumir os riscos que isso pode trazer. Precisa se responsabilizar pelas escolhas e, se der merda, recomeçar sem mimimi.

É foda, né? Não. Aquele inferno pessoal, o mau humor e aquela sensação de infelicidade plena não existe mais. Nada consegue tirar sua felicidade ao abrir os olhos e começar um novo dia. Todos os dias. Seu estado de espírito nunca esteve melhor e seu astral nunca esteve tão lá em cima! Você  nunca se sentiu tão vivo e nunca foi tão feliz, mesmo com tudo um caos. Vai entender, ne?

Nessas horas a gente tem a certeza de que a felicidade está mesmo dentro da gente e independe de fatores externos. A gente é uma bagunça só.

"E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem, então, agora eu seria?"

23 fev 2015

O Oscar do discurso consciente

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A cerimônia do Oscar 2015 rolou ontem e o que mais me chamou a atenção não foram os vestidos desfilados no Red Carpet nem a injustiça cometida com Boyhood, mas sim o discurso que a premiação levou para mais de 100 países ao vivo. Se você teve um pouco mais de sensibilidade, percebeu que algo estava diferente este ano e isso foi confirmado nas quase cinco horas de evento.

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O ator Neil Patrick Harris, conhecido por “How I Met Your Mother” foi convidado para ser o anfitrião da festa e chegou acompanhado de seu marido, o também ator David Burtka, onde responderam a perguntas dos entrevistadores no Red Carpet – que inclusive, usavam a palavra "marido" para se referir a eles. heart Casados há dez anos, eles têm dois filhos gêmeos. Um dos momentos que mais causaram frisson durante a premiação foi Neil só de cueca no palco, fazendo alusão à cena de Birdman, que levou 5 estatuetas para casa, incluindo o de melhor filme.

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Embora a diversidade tenha sido empurrada goela abaixo no tapete vermelho, essa edição do Oscar foi uma das mais criticadas por ser a que menos indicou atores negros, asiáticos e latinos desde 1998, o que não faz muito sentido se consideramos que no ano passado eles elegeram “Doze Anos de Escravidão” como o melhor roteiro adaptado e a triz Lupita Nyong’o como melhor atriz coadjuvante. De qualquer maneira, em reação a isso, algumas celebridades colocaram em pauta outros temas polêmicos como o feminismo e o suicídio.

#AskHerMore

Patricia Arquette

A campanha #AskHerMore foi encabeçada por algumas celebridades que protestavam contra o machismo no red carpet. Emma Stone, Reese Witherspoon e Julianne Moore são algumas atrizes que começaram a questionar as perguntas direcionadas às mulheres durantea entrevista no tapete vermelho, que geralmente se resumem em roupa, beleza e dietas, enquanto as perguntas direcionadas aos seus colegas homens são sobre seus trabalhos e projetos futuros. Não à toa, no Oscar do ano passado a atriz Cate Blanchett, soltou a seguinte frase para o entrevistador: "Você faz a mesma coisa com os homens?", no momento em que ele direcionou a câmera para o corpo inteiro, afim de mostrar seu vestido. 

Surtiu efeito? Surtiu. "Qual o melhor conselho que você recebeu?" ou "que papel feminino você sonha em interpretar?" lideraram o tapete vermelho desse ano e as grandes grifes que elas estavam vestindo ficou para o seguindo plano.

oscar_feminista

O ponto culminante do discurso que permeou toda a apresentação foi quando Patricia Arquette recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação – mais que merecida, por sinal – em Boyhood. Depois de fazer um longo agradecimento, ela elevou o tom da voz para protestar em defesa dos direitos femininos e dedicou a estatueta para as mulheres de todo o país: 


discurso

Suicídio e homossexualidade em pauta

O prêmio de melhor roteiro adaptado foi para “O Jogo da Imitação”. O filme conta a história real de Alan Turingm, brilhante matemático que, embora tenha salvado milhares de pessoas durante a segunda guerra, foi perseguido por ser homossexual. Graham Moore, roteirista do longa, ao receber o prêmio e fazer seu discurso, mencionou a tentativa de suicídio que ele cometeu aos 16 anos por “se sentir estranho e diferente, como se simplesmente não pertencesse a nenhum lugar”. E ainda continuou: "Queria dedicar este momento àqueles que sentem que não se encaixam em nenhum lugar. Continuem estranhos. Continuem diferentes. Quando for a sua vez e você estiver neste palco, por favor passe a mesma mensagem para os próximos que virão."

O suicídio, inclusive, foi também abordado também no discurso de Dana Penny, que foi a vencedora do Oscar de documentário de curta metragem. "Quero dedicar isso ao meu filho Even Perry. Perdemos ele para o suicídio.Devíamos falar em voz alta sobre o suicídio. Isso é para ele."

Chorei? Chorei.

Assim como as apostas das celebridades no red carpet são importante para o ciclo da moda, os discursos e as escolhas de indicados para uma premiação desse tamanho e mostraram essenciais para disseminar ainda mais a pauta mais importante para a sociedade hoje: as minorias. É incrível ver como um evento como o Oscar consegue comover tanto a mídia e os espectadores, e a gente espera que isso seja só o começo.

lady gaga oscar

16 fev 2015

Campanha propõe reflexão sobre padrões estéticos

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Se tem uma coisa que ganha espaço aqui no blog são pessoas, marcas e campanhas com a proposta de fazer a gente se questionar sobre padrões pré estabelecidos, principamente os da moda, que propõe modelos perfeitos de corpos, cabelos e roupas. No final das contas, onde a perfeição habita? 

manequins_deficientes

Foi pensando nisso que uma loja na Suíça criou uma campanha inclusiva e nada comum. Eles criaram manquins baseados em corpos de pessoas com deficiência física, a fim de propor uma reflexão sobre os padrões estéticos impostos hoje nas vitrines das lojas.

A campanha foi criada pela agência alemã Jung Von Matt/Limmat e deu origem ao curta “Because who is perfect? Get closer”, dirigido por Alain Gsponer. Dê o play e compartilhe amor:

#choray

13 fev 2015

Exposição: Ron Mueck na Pinacoteca

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Uma das exposições que mais formou fila em São Paulo foi a do Ron Mueck na Pinacoteca. Em seus últimos dias (no próximo 22 ela se despede do país), o museu resolveu extender os horários e, assim, dar chance para quem ainda não visitou a exposição. A mesma já passou por Japão, Austrália, Nova Zelândia, México, Buenos Aires e Rio de Janeiro (onde recebeu 230 mil visitantes).

Eu consegui entrar só mesmo na terceira tentativa. E valeu a pena. Embora a exposição seja bem pequena, as obras hiperrealistas são mesmo de impressionar e não decepcionam. O artista consegue captar mais que a similaridade física – as obras parecem mesmo ter alma e se tratar de pessoas reais, e por isso Mueck dá diferentes proporções – são sempre muito grandes ou muito pequenas.

As peças expostas valem, ao todo, R$77,4 milhões e pesam, juntas, 7 toneladas. Dá pra imaginar? Se você está em São Paulo e ainda não visitou, não perca a chance! Aproveite a quinta-feira que a Pinacoteca fecha às 22h e fuja das filas! Abaixo,algumas fotos que fiz das obras:

runmueck_pinacoteca

12 fev 2015

Como as questões de gênero influenciam o seu modo de vestir

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Muito se tem discutido – e, principalmente, questionado, sobre as questões de gênero na sociedade. O movimento feminista ganhou força e prova disso foi o desfile-protesto da Chanel, que trouxe a pauta pra moda. As coleções da última semana de moda masculina de Londres e Milão pareceram vestir homens e também mulheres, e Miuccia Prada questionou a divisão masculino/feminino colocando modelos mulheres no desfile masculino da grife. De fato, é preciso falar sobre as questões de gênero.

Mas o assunto não é novo. No início do século a estilista Coco Chanel trocou saias bufantes por calças compridas e espartilhos por camisas. A moça foi ousada, mas deu o primeiro passo num movimento que é visto até hoje. Nos anos 1970 Yves Saint Laurent colocou o típico Smoking num corpo feminino e fez com que as mulheres tomassem conta do traje. A época foi propícia: uma década mais tarde, elas também colocaram ombreiras, terninhos e foram consquistar seu espaço no mercado de trabalho. A androginia nunca antes foi tão necessária.

androginianamodaE falar em androginia em 1970 e 1980 é falar de música. Nessa época, a cena musical e os artistas mais expressivos se questionavam sobre o que era de homem e mulher. David Bowie se dissociava de gênero através de seu personagem, Ziggy Stardust. Madonna surgiu na cena pop vestindo trajes tipicamente masculinos para mostrar o poder feminino na sociedade. No Brasil, Ney Matogrosso era – e ainda é – o principal expoente da androginia à moda da casa.

musica

Mas é preciso se atentar aos termos. Androginia é a ausência de gênero e nada tem a ver com sexualidade. Um homem heterossexual pode ter beleza andrógina, assim como uma mulher também pode se vestir como um homem independente da orientação sexual. Na passarela, o que vemos como tendência é o unissex – uma roupa que pode vestir tanto um homem quanto uma mulher. Nada mais justo, se formos considerar que houve um tempo na sociedade em que saia era coisa para homem, por exemplo. 

A moda, sempre questionadora, logo tratou de adotar as questões de gênero para si. Prova disso é Andrej Pejic que se tornou o principal modelo andrógino e desfilou tanto para marcas masculinas quanto femininas (vale destacar que hoje, Andrej é transsexual, uma vez que se submeteu a cirurgia de mudança de sexo). Conchita Wurst foi outra modelo que, descoberta num reality show de música, onde se apresentou com cabelos longos e barba, ganhando visivilidade internacional por meio de um visual no mínimo questionador, logo foi parar nas passarelas da semana de moda de Paris. Estrelou campanhas e viajou o mundo.

passarelaunissexSe você está se perguntando o que isso tem a ver com você ou como isso te influencia, eu te explico. Assim como hoje mulheres se apoderaram de peças antes só dos homens por uma questão quase de necessidade (para conquistarem seu espaço), hoje, os homens estão mais à vontade para também se apoderarem de peças antes ditas femininas. Isso soma-se ao fato das questões de gênero estarem cada vez mais na pauta dos almoços de domingo. O que é "de meninina" e o que é "de menino" começou a ser questionado e prova disso são as notícias recorrentes de crianças que não se reconhecem nas características pré-estabelecidas, lojas de roupas que investem mais no unissex, entre outras. Abaixo, separei as notícias que mais me chamaram atenção e que, de uma maneira ou de outra, fazem a gente parar um pouco pra pensar sobre o assunto.

nbamidiaA liçao disso tudo é: vista o que você quiser e, principalmente, aquilo que faz você se sentir bem.

11 fev 2015

Marca cria Bolsa-Paternidade e questiona os padrões de família

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As famílias estão mudando e isso não é novidade para ninguém. Lembro que no meu ensino fundamental eu já aprendia sobre os novos formatos de família: pais e mães solteiros, tios que criam sobrinhos, casais homossexuais, filhos adotivos. O conceito de que família é formado por pai e mãe apenas, além de ultrapassado, é extremamente egoísta e preconceituoso.

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E o que isso tem a ver com moda? Tudo.

Existem diversas marcas que já estão focadas nas necessidades dessas novas famílias. Uma delas, que tive o prazer de conhecer, é a Zot Luz, uma empresa que surgiu na observação dessa nova demanda. Surgiu para oferecer produtos exclusivamente para pais. Eles criaram a bolsa-paternidade, a versão masculina da bolsa de bebê que geralmente fica sob a responsabilidade da mulher. Quem vê de longe, mal percebe que se trata de uma bolsa adaptada para um pai, mas por dentro, ela é pensada em cada necessidade do baby, como compartilhamentos adequados para guardar fraldas limpas e sujas, mamadeira e trocador. O mais legal é que a bolsa foi desenvolvida por homens e mulheres, o que transporta as reais necessidades deles e delas para o produto. 

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Isso mostra que tem muita gente questionando  sobre os papeis pré-estabelecidos que a sociedade impõe há séculos (de que, por exemplo, pais estão a um patamar abaixo das mães). A criação de um produto desses, além de representar um nicho específico de consumidores em potencial, abre precedentes para uma série de questionamentos sobre o que é certo e o que é errado nos dias atuais.

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