Sem geração

10 nov 2014

Tempo é dinheiro. E amor.

Por

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Ilustração de Lorena Kaz

Não que eu seja um cara romântico – eu já fui, mas aprendi a fixar bem os pés no chão e trazer o coração pra perto de mim- mas outro dia, conversando com um amigo sobre os relacionamentos passados, percebi que não me lembro mais da última vez que disse eu te amo a alguém que não fosse da minha família. Não que eu também tenha ditos muitos "eu te amo" por aí, mas, ainda que não fosse amor, a vontade de expressar vinha… Até que um dia ela parou de vir.

A gente cresce e os relacionamento se tornam cada vez mais complexos. E cansativos. O amor inocente do ensino médio, os elogios sinceros e espontâneos, o almoço de domingo esquematicamente organizado para apresentá-lo à família e os torpedos tão aguardados no final de cada novo encontro… Tudo isso dá lugar a outras preocupações: a de não demonstrar interesse demais, a insegurança de saber quem está mais afim de quem, a dúvida do sexo no primeiro encontro e o medo dele ser só o carinha babaca dos aplicativos (ops, eu também não estou por lá?).

É difícil se acostumar com mensagens - literal e metaforicamente - visualizadas e não respondidas (- não fala mais nada, vai parecer que está atrás dele!); com gente que sai com você, mas tem uma lista grande de espera caso não dê certo; gente que você tem medo de dar "oi" novamente, porque foi também o último a falar. É difícil se acostumar com as convenções dos relacionamentos pós-Tinder e tudo que está nas entrelinhas das atitudes não tomadas;

Estávamos falando mesmo de amor?

A sensação é da perda de tempo, e tempo é dinheiro - e amor. É como se, a cada novo encontro, você tivesse que refazer todo o seu currículo porque a vaga é de outro setor. Ter que reescrever cada linha caçando qualidades suas que, as vezes, nem existem mais. É como se, depois de cinco meses de empresa, você percebesse que ela não te valoriza e te substituiu por outro porque o processo de trabalho é fordista – independe de quem está no cargo – está ali só para cumprir normas inabaláveis. Uma hora cansa, e você cogita a possibilidade de trabalhar para si mesmo, começar o seu próprio negócio e se tornar autônomo de uma vez por todas.

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Amor em: Tempos Modernos.

3 nov 2014

Circuito Banco do Brasil revela o poder de festivais pequenos

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No último sábado eu estive na edição paulistana do Circuito Banco do Brasil, que aconteceu debaixo de um sol de dar inveja ao verão, na Arena Campo de Marte, e pude sentir o gosto de festivais pequenos. Com um line up nada surpreendente, o festival mostrou que dá para fazer bonito com pouco e se consolida como um dos festivais nacionais que mais ganha público – uma vez que o Planeta Terra deu adeus ao circuito alternativo de eventos musicais que acontecem em solo brasileiro.

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Os shows começaram pontualmente às 15h15. O evento comçou antes, no entanto, com a realização do II Copa Brasil de Skate Vertical, que aconteceu em parceria com a Confederação Brasileira de Skate e premiou o vencedor da competição com R$11.000,00. Helga, banca vencedora do concurso organizado pelo evento, abriu os trabalhos e deu lugar ao show que faz parte da nova turnê da Pitty, que apresentou um line up reduzido, mas não menos animado. O show contou com hits do início de sua carreira como Máscara e Teto de Vidro, mesclou com canções do novo disco "SETEVIDAS", e ainda surpreendou o público com Pulsos, música que funciona muito para festivais. Estive no pit fotografando as duas primeiras músicas e a sensação de estar ali bem colado ao palco é sentir um pouco da sensação do público – que se espremia na grade – e da banda, que comandava a festa.

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Os mineiros do Skank seguiu o line up programado e foi surpreendido pelo temporal anunciado pela previsão. O público, no entanto não desanimou e ficou até o fim com o set previsível e cheio de canções já consagradas na música brasileira. As bandas mais esperadas, no entanto, vieram em seguida. A eletro indie MGMT ofereceu um show morno com poucos hits de Oracular Spectacular (CD que os levou ao mainstream) debaixo de uma garoa que esfriou o público e o clima da Arena. 

Paramore, no entanto, foi a grande surpresa da noite (pelo menos pra mim), e ofereceu um show animado, com um set cheio de hits do início ao fim. Singles dos seus primeiros discos não faltaram como Misery Business e Decode. A banda mostrou como é fazer um show de festival e arrancou gritos do público cheio de fãs histéricos. Mas até mesmo quem estava ali por outras bandas, certamente se animou. Após Paramore, grande parte da arena foi embora abrindo espaço para os poucos que ficaram até o final com Kings Of Leon, red line também bastante esperado, que fez bonito com um show de 21 músicas, mostrando que sabe fazer um show de final de festival.

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BÚ!

21 out 2014

Literatura na moda: On The Road, Walter Salles e a nova coleção da Rowney

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Quando eu digo que alguém que trabalha com moda precisa entender um pouco de tudo, não é exagero. Se você se propõe a falar de moda, certamente precisa entender o mínimo de economia (uma vez que ela mexe com o sistema econômico), de música (os movimentos musicais influenciam e sempre vão influenciar a moda das tribos), de comportamento (a mudança do vestuário ao longo dos século XX está aí para provar isso) e também de literatura.42fa0809db2804ad3502137e68464b49

Falo isso porque recentemente recebi o release da coleção de uma marca carioca que se reestrututou e trouxe novidades para seus consumidores. A Rowney coincidentemente me enviou a campanha da nova coleção intitulada "On The Road" na mesma semana em que eu peguei o livro de Jack Kerouac para ler. Calma que eu explico.

Após assistir, depois de mais de dois anos, o filme brasileiro-franco-canadense de Walter Salles (respeitável diretor conhecido internacionamente), On The Road, decidi finalmente pegar o livro e tentar entender mais de perto como uma obra pode influenciar tanto uma sociedade e ser fator determinante para uma das tribos urbanas mais importantes do século XX, os hippies. O filme de 2012v(que tem no elenco as Kristen Stwart e Dunst, Garrent Herlund e a brasileira Alice Braga no elenco) é uma adaptação do livro homônimo lançado nos anos 50 e, pra quem ainda não assistiu, a dica é quem tem no Netflix!

A Geração Beat

A história do livro conta os anseios utópicos de um grupo de jovens do pós-guerra que decidiu largar a vida engessada pelos seus antepassados, pegar a estrada e seguir rumo ao oeste dos Estados Unidos guiados pela filosofia de vida livre que permeou a geração de artistas marginais, estudantes, poetas, escritores e músicos na década de 1950. Eles vinham de tempos de guerra, e viram seus pais serem oprimidos pelo governo numa sociedade opressora. Por isso, tinham como valores o amor livre, a comunhão com a natureza e, sobretudo, a felicidade pura e orgânica como princípio básico. Segundo o historiador Eduardo Bueno, como conta no prefácio do livro, esses jovens eram chamados de hipsters lá década de 1950 (qualquer relação é mera coincidência) por serem considerados modernos demais e com princícios que se opunham aos anteriores.

O livro de Jack Kerouac dá forma a essa geração e foi o mais lendário e famoso do autor de outro 23 títulos. Virou uma espécie de bíblia para esses de jovens que, uma década mais tarde, desencadeou nos Hippies. A obra foi influência em vários sentidos. Exemplo disso são os registros de que Bob Dylan saiu de casa após ler a obra, e The Doors tenha sido formado após Jim Morrison terminar a última página de On the Road. 

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Instagram: @semgeracao

E não foi à toa, imagino eu, que uma marca carioca de moda masculina usou a obra de Kerouac como ponto de partida para a criação das peças de sua coleção de verão e estética do catálogo. A Rowney tem ganhado os cariocas com um conceito bem "livre", por assim dizer. Ambiente descontraído, música, estilo, diversão e bebida para os que visitam seu espaço físico na Tijuca, um dos bairros mais cariocas que o Rio de Janeiro poderia ter. Dessa vez, a Rowney fugiu do sportwear que permeou toda sua trajetória e, agora, alia um conceito diferente em seu DNA. Parece que, na nova coleção, tudo tem um porquê: os tons terrosos do solo, o azul dos lagos e o verde da vegetação, que diversas vezes são citados na obra de Jack Kerouac, colorem as peças. As estampas também buscam traçar rotas e vêm em formatos de mapas e caminhos. As lavagens das camisas jeans (que eu já estou apaixonado!) resgatam o desgaste das estradas e, quando aliadas às bermudas coloridas (afinal, é verão!), buscam um apelo fashion do novo homem. Mas tudo bem aos moldes do lifestyle carioca. As peças podem ser encontradas também no site.

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17 out 2014

#ElleFashionPreview

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Já faz algumas temporadas que a revista Elle Brasil tem investido nos desfiles de abertura da semana de moda oficial de São Paulo. O primeiro, aconteceu sobre a Ponte Estaiada (símbolo da cidade) e fez burburinho na cena fashion local. O lugar mudou, mas continua sendo um dos eventos que antecedem a semana de moda que mais reúne nomes de peso.

O desfile que abre a temporada de Inverno 2015 das grifes brasileiras que desfilam em São Paulo aconteceu ontem, no terraço do shopping JK, que oferece uma vista incrível da cidade. Dez estilistas, com curadoria de Paulo Borges, mostraram suas apostas para o próximo inverno. Entre eles, Oskar Metsavaht mostrou o que fez da Osklen uma das etiquetas brasileiras que transporta a identidade do Rio de Janeiro para além do lifestyle carioca, e Alexandre Herchcovitch investiu em nomes consagrados no pequeno time de modelos que escolheu para desfilar suas peças. O fashion show foi seguido de uma festa que reuniu modelos, estilistas e fashionistas, sob o comando da modelo e apresentadora britânica Alexa Chung, que esteve pela primeira vez ao Brasil a convite da revista e atacou de DJ durante o restante da noite. Infelizmente, nenhum look masculino foi apresentado – agora é esperar o SPFW. Mas fiquem com os cliques que fiz na noite de ontem:

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16 out 2014

Moda é para ser

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Foi entre seis e sete anos de idade a minha primeira e verdadeira relação com o vestir. Vi em algum desses programas da TV aberta do início dos anos 00 que lixa para parede, (aquelas de obra, sabe?) se esfregada no jeans, causava o desgaste do tecido e a peça ficava cheia de personalidade. Não pensei duas vezes: peguei uma lixa no quintal de casa e, não só a esfreguei pelas duas pernas da calça como também usei a tesoura para transformá-la em bermuda e ainda arrisquei uns escritos com tinta colorida.

Eu não fazia ideia do que era moda, mal sabia que existia uma faculdade disso. Eu só sabia brincar e tentar descobrir como ser eu mesmo com aquelas roupas que tinha. Eu sempre tive essa relação criativa com busca de uma identidade (seja ela qual fosse) – sempre quis me diferenciar de todo mundo, justamente por não me sentir pertencendo a nenhum grupo. Como minha mãe era costureira e sempre usou o tecido, as linhas e as máquinas para expressar sua arte, foi dessa maneira que eu aprendi a me expressar também.

Sétima série. Eu tinha um All Star, desses simples, preto e básico, que usava em todas as ocasiões. Ele já estava furado, rasgado e sujo – o que fazia dele ainda mais especial. Infelizmente um dia ele ficou inutilizável, e foi quando minha mãe me deu outro de presente, novinho, limpo, branco – iguais a todos daquela vitrine. Eu não me conformei e me recusava ir à escola com aquele tênis novo, igual a todo mundo. Foi então que peguei uma lata de tinta preta, o pincel e rabisquei de preto toda a borracha branca, dando a sensação de velho, usado, desgastado. Fui assim pra escola. O espanto – e julgamento – dos amiguinhos era evidente. Diziam que minha mãe era louca de me deixar fazer aquilo com um tênis novo. Para completar o show de horrores, usava o equivalente a um palmo de pulseiras no braço direito, que dificultava até a escrita. Alguns chamam hoje de “pulseirismo”. Eu só queria me enfeitar. As pessoas comentavam, os meninos me zoavam, mas eu? Eu gostava mesmo era de ser diferente de toda aquela gente.

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Kurt Cobain, Cyndi Lauper, David Bowie e James Dean: moda como expressão ou auto afirmação?

Isso sempre foi moda pra mim. Era – sempre foi, e sempre vai ser – uma maneira de me comunicar comigo mesmo, de me diferenciar dos demais e uma ferramenta para expressar sentimentos, divertir e me sentir especial. A moda que eu sempre conheci foi essa: que ajudava a gente se expressar. Talvez se não fosse a roupa, eu não saberia outra maneira de fazer isso.
Até que eu entrei na faculdade de quê? De moda, claro. E foi aí que eu descobri um universo diferente daquilo que eu pensava ser moda. Lá, as pessoas relacionavam tudo isso a dinheiro, a status, a marcas que eu sequer tinha ouvido falar na vida (que me desculpem Chanel e Yves Saint Laurent). Para aquelas pessoas, moda não era a expressão do ser. Pelo contrário, todos ali eram muito iguais, fotocópias de terceiros – cabelo, sapato, bolsa – era tudo a mesma coisa.

O meu primeiro Fashion Rio, por exemplo, foi um horror. Achava um máximo poder cobrir aquele evento com 17 anos, mesmo que para o blog da própria faculdade (que ninguém lia). Sentar na fileira A sem ninguém saber quem eu era, o frio na barriga do primeiro desfile quando as luzes se apagaram e observar, observar, observar. Eu estava feliz, mas a sensação de que aquilo não fazia parte de mim continuou. Não é possível! "O problema deve estar comigo", eu pensava. Primeiro estágio, primeiro emprego, primeiros amigos fashionistas, primeiros blogs de looks-do-dia com patrocínio de marcas e empresas. Primeiros julgamentos por usar a etiqueta fora do “aceito” pelo universo fashion. Tudo era bem diferente daquilo que eu pensava ser moda quando a usava para expressar minha individualidade. Mas, de alguma maneira, eu segui em frente.

Hoje, com certo distanciamento, eu percebi que a moda tem é duas caras.

Há o lado que diz para uma parcela grande das pessoas que moda é ter. É ter a Chanel, é ter a estampa do último desfile, é ter o último lançamento do estilista X, ter a peça do momento (só não se esqueça de jogá-la fora na próxima temporada). O resultado disso é podar o nosso próprio "eu" em essência, que dá lugar a uma infinidade de pessoas iguais, sob um sistema que diz que, se você não tiver o último lançamento de qualquer coisa, você está fora dele. Fora de moda. E alguém aí quer estar fora de moda? Um sistema que enforca as pessoas, as obriga a ter o tempo inteiro, a se comportar de maneira tal, a usar tal coisa, mesmo que machuque, física ou metaforicamente, mesmo que aquilo não diga quem você é. É um sistema que privilegia poucos, que coloca as pessoas em grupos, que segrega. É esse o lado que também induz ao consumo inconsciente e descontrolado. É esse o lado que oprime e que faz as pessoas, cada vez mais, querer ser o outro. Ser a Thassia, ser a Camila, ser o Mariano. Levei um tempo para descobrir o que se passava e agora, com certo distanciamento, percebi que esse lado da moda não me representa e nunca vai me representar.

O outro lado sempre esteve comigo. O lado que me dizia que eu precisava transformar aquela peça comum para exteriorizar um pouco do que eu sentia na escola, na vizinhança, em casa. O lado que não me deixou sair com aquele tênis novo porque ele não pertencia a mim. O lado que sempre me disse que roupa é um pedaço de tecido para enfeitar e cobrir o corpo, independente da etiqueta que ela trazia consigo. O lado que me mostrou de maneira inconsciente e orgânica que moda é liberdade. Moda é expressão. Moda é ser.
 

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Esse sou eu, aos 7 ou 8 anos, um pouco depois de descobrir que eu podia me expressar através da roupa.

14 out 2014

Hospital Matarazzo – entre arte, mistério e empreendedorismo

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Imaginem só um hospital inaugurado em 1905 sem nenhuma reforma até hoje. Ele foi fechado há duas décadas e sempre viveu cercado de mistério. Em 2003, uma pesquisora e especialista em prédios tombados descobriu tapadas de cimento e tijolo. Entrevistando ex funcionários, descobriu que o conde Matarazzo, dono do hospital e maternidade, era simpatizante de Mussolini, e teria utilizado o prédio para esconder fascistas perseguidos no Brasil. O hispital foi abandonado em 1993 depois de uma fiscalização da vigilância sanitária e, em 2011, o terreno de 27 mil metros quadrados foi comprado por 117 milhões de reais por um investidor gringo, que vai transformar o espaço no hotel mais glamouroso de São Paulo.

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Para literalmente chamar a atenção da mídia para o empreendimento, o mesmo investidor desembolsou 15 milhões de reais numa exposição de arte moderna que ocupa todo o antigo hospital, reunindo cerca de cem (isso mesmo, 100!) artistas contemporâneos que ocuparam o espaço dando sua interpretação pessoal para cada parte do edifício e interagindo com os mistérios que assombram o lugar. Já passaram cerca de 80 mil pessoas e, só no sábado (que seria o penúltimo dia de exposição), o lugar recebeu 6 mil visitantes. Resultado? Estenderam, é claro, a exposição até a próxima sexta-feira.

Se você ainda não visitou, vale a pena. A quantidade de obras é, talvez, um exagero e o caráter "comercial" que permeia toda a exposição pode, de certa forma, descaracterizar o propósito da arte. A experiência de visitar o lugar, no entanto, é única. Eu estive lá sábado passado e fiz umas fotos. Coloquei algumas nesse post e as outras estão lá no meu Flickr. 

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